
A frase do título é do técnico brasileiro. Mano manda bem no discurso. Não é inesperado. Mas pelo menos sai do óbvio. Victor só não joga mais que Fábio, hoje, nas metas brasileiras. Daniel Alves e Thiago Silva são titulares em qualquer lugar do mundo. David Luiz sofre pelo preconceito com qualquer Liga que não seja a da Inglaterra, Itália, Alemanha… As pessoas esquecem que existe futebol fora desses lugares. André Santos não é o melhor brasileiro para a posição, mas é preciso ponderar que qualquer treinador deve ter o direito de fazer suas escolhas (Dunga fazia isso com todos os 11!).
Lucas não tem jogado no Liverpool como vai jogar com Mano, mas isso não muda o fato de que ele deveria ser titular na África do Sul. Ramires é um pouco de bom que ficou da era Dunga, melhor ainda é vê-lo de segundo volante. O fato de ele ser técnico, habilidoso, cerebral, não o obriga a ser meia. Tostão, craque do Cruzeiro como Ramires, e gênio das palavras, lembra que Fernandão, por ser habilidoso, cerebral, bom cabeceador, não precisa ser meia, ainda que alguns treinadores insistam em escalá-lo assim – ele pode muito bem contrariar a lógica dos centroavantes. “Paulo Henrique é melhor do que eu”. De fato a frase poderia ser do blogueiro. Mas é de Sócrates. Não o pensador, mas o jogador. Tão pensante quanto. Não sou eu a contrariá-lo. No treino a equipe tinha dez. No jogo, a vaga foi ocupada por Pato, formando um trio de ataque. Desde o dia 6 de junho de 2008 o Brasil não entrava em campo com três atacantes. Naquela data, o Brasil perdeu para a Venezuela por 2 a 0 em um amistoso em Boston. O time de Dunga atacava com Robinho, Adriano e Alexandre Pato.
Mano pediu no começo passes mais longos, viradas de jogo, futebol horizontal. O time preferia dentro do campo aproximar, jogar na segurança, sem arriscar. Os EUA apertaram a marcação em cima dos volantes e laterais brasileiros. Dominou as ações. Donovan saiu na cara de Victor, num passe mal abacado de Daniel Alves. Na primeira bola em que ouviu o treinador, Robinho deixou Pato na cara de Howard, faltou só a finalização mais precisa. Era o cartão de visitas.
Robinho começa o jogo no meio pela direita. Neymar abre na esquerda, Ganso fica por dentro, e Robinho joga numa linha atrás dele. Quase que fechando a subida do lateral González. O treinador americano saca o lance: Donovan dobra na esquerda para matar o lado mais forte do Brasil, de Daniel Alves e Thiago Silva; Robinho por ali é útil para segurar o anseio dos donos da casa.
Não se pode desconsiderar o fato: a voz isolada da transmissão da Seleção na TV brasileira não é de Galvão Bueno. É um fato. Na primeira subida de Daniel, Robinho fecha pelo meio e bola jogada para dentro da área não encontra ninguém. O lance desnuda como o time de Mano é afeito ao jogo, a ousadia, ao diferente. Isso diferencia o domínio dos EUA, da presença do time brasileiro.
Duas coisas são óbvias com 15 minutos: falta entrosamento e um time não pode prescindir de alguns jogadores, jamais num selecionado. O entrosamento, ou a falta dele, impede que Neymar e Robinho troquem de lado, o que será essencial para enganar a marcação, o mundo todo já sabe o potencial que há na Vila Belmiro e o que eles podem oferecer a Seleção. Entre os jogadores imprescindíveis está Paulo Henrique. Não ele em si. Mas um jogador capaz de olhar para cima, para o horizonte, meter uma bola em profundidade, ser o ponto de equilíbrio, a cabeça pensante, o jogador para que quem venha pelo lado olhe e dê a bola com segurança. Ganso faz tudo isso, fazendo parecer fácil.
Dunga estreou em 16 de agosto de 2006. Seu time empatou com a Noruega, na Europa, com Gomes; Cicinho, Lúcio, Juan e Gilberto; Edmílson, Gilberto Silva, Elano e Daniel Carvalho; Robinho e Fred. O jogo imediatamente anterior, Parreira perdeu para a França, na Copa da Alemanha, também com Lúcio e Juan na zaga, Gilberto Silva no meio e mais ninguém. Foram três repetições, na mudança de comando. De Dunga para a Mano, do time que foi eliminado para a Holanda, repetiram-se Robinho e Daniel Alves, que na despedida da Copa da África foi meia. São duas repetições.
Quando os EUA têm a bola, o Brasil marca assim: Neymar e Robinho trancam os laterais, Ramires dá um passo a frente, Ganso cai pela esquerda e Lucas dá um passo à direita (ocasional pela presença de Donovan, o craque do adversário, por aquele espaço). Nunca na seleção de Dunga o volante marcou a frente do meia. Gosto disso. Na medida em que o poder de marcação de um e outro, seja quem for, é muito diferente. O time ganha estabilidade por isso.
O meia brasileiro era Kaká. Hoje é Ganso. Kaká é o jogador do arranque, que pouco sai da faixa central do gramado. Ganso é o jogador que larga o meio, vem para ponta, para tabelar com o lateral. Isso dá opção. Ou o ala vai no fundo, ou vem por dentro, com o auxílio do meia. É isso que se espera desse tipo de jogador. Sem falar, que essa movimentação confunde a marcação alheia.
O tempo corre na partida, o time brasileiro se conhece mais e os EUA perdem espaço. Impressiona como o time de Mano não dá chutão. Sai sempre com paciência, repertório, pelos lados, por dentro. É um bom jeito de valorizar a posse de bola e não dar oportunidade ao adversário. Isso também favorecer a qualidade das nossas individualidades. A bola chega sempre na boa para gente feito Neymar, que ousa, busca o drible. Inegavelmente fica um time mais vistoso de ver.
A seleção é a imagem e semelhança do Corinthians, time que ganhou tudo no primeiro semestre do ano passado. Quatro atrás, um volante (Lucas: Cristian), outro volante mais adiantado (Ramires: Elias), um meia canhoto, pensador (Ganso: Douglas) e dois atacantes rápidos pelos lados. A grande diferença é a figura de Ronaldo no Corinthians, em contraste com Pato, na seleção; embora, na minha cabeça, Luís Fabiano está nos planos do treinador. Até a figura de Robinho, um atacante que busca muito o jogo no nascedouro da jogada, se repetia em Dentinho.
O Brasil de Mano tem claras inspirações no Barcelona, na Espanha (sim, um é a outra coisa e vice-versa). É um alento. Uma perspectiva de futuro interessante. Isso representa uma coisa. É um time que raramente chuta em gol de fora da área. O Brasil, mais por falta de treinamento, entrosamento, esperado, entendível… O Barcelona, e um pouco menos a
Espanha, por filosofia de jogo, porque entra o tempo todo na área. Entendível. Está longe de ser um defeito, quando se trata de uma convicção. Mas é preciso ter repertório para tanto, da mesma forma, tempo de trabalho.
Depois da metade do primeiro tempo, a primeira grande mudança: Robinho inverte de lado com Neymar. Robinho começa o lance, André Santos lança em profundidade e, na direita, Neymar mete de cabeça no canto do goleiro. Um golaço, tático, pensado. Essas variantes são vitais em um time. É útil dizer como, ainda que com três jogadores no meio-campo, o time é equilibrado e não deixa os EUA se sobressaírem. E como a solidariedade dos atacantes abertos nas pontas, e a entrada por dentro, ora um ora outro, dos laterais, deixa o time estável. Mas a propósito, registre-se que me pareceu bem anulado o gol de Pato, na medida em que ele não evita o choque com o goleiro, no lance. Só faltou um pouco mais de tato para o árbitro, que também se registre, foi muito bem voltando e revendo a decisão, sem prepotência.
Assinala-se ainda, que se o resultado não valia de muita coisa na partida, a motivação e a qualidade do adversário resolvem muitas coisas. É um grupo mais entrosado e com mais ritmo de jogo que o do Brasil, fez treino fechado na antevéspera, fez uma campanha digníssima e prejudicada pela arbitragem na Copa (mais de uma dezena de jogadores que enfrentaram o Brasil, foram para a África), sem falar que decidiram a Copa das Confederações há um ano e têm jogado um bom futebol, desde então.
Desde que o time se conscientize da importância de jogar futebol, o que parece refletir-se na sobriedade com o que o time levou o primeiro tempo contra os EUA, e não tente o espetáculo por espetáculo, que não resolve, o caminho se vislumbra próspero. Pelos nomes, pela proposta, pela conduta. Lembre-se que no segundo jogo da Era Dunga, veio a vitória emblemática da Seleção contra a Argentina, no Emirates Stadium, em Londres. Isso não é pouca bosta.
Encanta-me o Brasil desmistificar essa coisa do time “bom de contra-ataque”. Isso não enche barriga. Não pode ser um fim. Pode ser um meio, para usar um lugar comum. Mesmo que o time não tenha sido exigido para tal. Não por incompetência. Mas porque os EUA têm qualidade, um meio-campo muito forte, que não dá espaços, que guarda posição, que não se expõe por qualquer coisa. Vale assinalar como o time terminou o primeiro tempo aplaudido pelos quase oitenta mil presentes em Nova Jersey. Um marco importante para a campanha de Mano. De uma seleção que, lamentavelmente, já teve ver os torcedores atirando as bandeiras em direção ao gramado do Morumbi, num empate com o Peru, pelas Eliminatórias em 2001. Ou que veja teve que ouvir o olé de um Mineirão inteiro a favor da Argentina, em outro empate, pelas Eliminatórias em 2008. São marcas e marcos importantes.
Como importante é olhar com atenção para o segundo gol brasileiro, no apagar das luzes do tempo inicial. A movimentação, a ousadia, mas acima de tudo, a participação de Ramires: um volante que chega de trás, que dá opção ao meia, que sabe jogar! E quanta diferença. Tamanho da diferença do futebol que foi visto na partida.
Existem coisas que são inequívocas no futebol. E seleção é lugar de jogador acima da média. Jogador médio não tem espaço em seleção. O time de Mano ainda não é isso. Mas está a caminho dê. Claramente. Está no seu DNA. A equipe se mostra montada em cima dessa lógica.
O primeiro lance do segundo tempo, Robinho aberto na esquerda, Pato recebe por dentro, dentro da área, e perde gol na cara do goleiro. O aspecto mais significativo da jogada, no entanto, está no início: a visão de jogo de Paulo Henrique. Ganso recebe, levanta a cabeça e coloca como com que a mão. Já que recorremos a Sócrates, mais uma vez vale a lembrança. O Doutor defende que essa visão de jogo, periférica, não se aprende; pode ser aprimorada, mas o sujeito nasce com isso. E ponto final.
Na minha cabeça, e a passagem de Dunga reforçou isso para mim, qualquer técnico a frente da Seleção tende a se dar bem, fazer um trabalho positivo no longo prazo. Mas desde que seja um treinador. Dunga não era. Mano é. E uma olhada geral no jogo desnuda isso. A organização do time, o posicionamento, sem qualquer tempo para treinar. Fica claro, como se diz no clichê, “o time tem o dedo do técnico”. Não é preciso mais que um tempo para perceber isso.
E a priori, é sempre prudente avaliar, mas não fazer julgamentos nesse momento do trabalho de Mano Menezes. Na medida em que qualquer coisa já seria melhor que os últimos meses de Dunga a frente da Seleção. É como que se o parâmetro mais imediato devesse ser esquecido, para o bem do futuro da equipe.
Penso que um dos grandes méritos de Dunga a frente da equipe foi devolver o interesse e o respeito à camisa amarela. Mas no longo prazo, isso se voltou contra o próprio grupo, com conceitos deturpados de comprometimento, gratidão e coisas assim. Contudo, os grandes momentos do Brasil foram durante as partidas em que a equipe estava pressionada, como que a responder os críticos, e nos jogos mais importantes, como não poderia deixar de ser. Não foram raras as partidas, entretanto, no qual o grupo demonstrava certa má vontade, displicência, que faziam as partidas serem modorrentas e enfadonhas. Não foi o caso contra os EUA. É fato que o momento era inteiramente outro, com uma nova proposta de jogo, novos nomes, mas também é notório que isso não relativiza tanto as coisas.
São, no gramado, todos jogadores provados, a favor do Brasil. Mas registre-se como o time foi preciso em fundamentos fundamentais, para usar um pleonasmo. Errou pouquíssimos passes, fez poucas faltas, em linhas gerais, no que se costuma falar de “erros não-forçados” em outros esportes, o time passou ileso. Isso garantiu segurança, estabilidade e o controle absoluto do jogo em parte considerável do tempo.
Logo a partir dos vinte minutos do segundo tempo, Mano lançou mão de uma estratégia importante, que é o de
aproveitar o entrosamento dos clubes. Ou seja, a entrada de André, na vaga de Pato, deixou o Brasil com quatro jogadores que encantaram o mundo em seis meses de Santos. É evidente a utilidade que isso tem na prática. Vide, mais uma vez, o exemplo espanhol, campeão do mundo. Mas que se pontue, também, que Dunga fez isso, desde o começo do trabalho. Com o exemplo mais notório de usar toda a defesa da Internazionale, campeã europeia com o português José Mourinho. A começar do melhor goleiro do mundo.
Até pelo número de substituições, por uma contingência de jogo, a superioridade brasileira se acentuou no segundo tempo. A elegância, a sobriedade, a eficiência foi levada à enésima potência. Para ficar nos lugares comum, a segurança de Victor e da dupla Thiago Silva e David Luiz, que jogam sem espalhafato, lição bem apreendida com o mestre da discrição Don Juan; a destreza e a graça de Lucas e Ganso, um para construir e o outro para construir, igualmente relevantes; e ao final o atrevimento e a galhardia de Neymar, que nem seria titular na minha seleção, mas é o retrato e a personificação do jogador brasileiro, que nasceu para ser o distinto, de quem pode se esperar sempre algo inventivo, incisivo, malandro. E a joia santista representa isso. Dá gosto vê-lo inventar, desmoralizar, afrontar, atrever-se…
E no lugar dele, veio Éderson, substituto de Juninho no Lyon, um adjetivo indiscutível. Só que lamentavelmente tenha jogado tão pouco, uma frustração realmente triste. A cena foi plasticamente horrível, de uma contusão séria, comum para quem acompanha futebol. É alentador que ele tenha saído caminhando, no rosto dele estava estampado que a dor mais representativa não era na perna. De fato deprimente, melancólica. Uma reversão de expectativa dura de aceitar.
Quase equivalente ao tirambaço de Ganso, já próximo aos trinta da etapa final, na trave. Com classe, precisão, petulância, de um cinismo que dá gosto de ver, gosto de torcer! Estou convencido de que ele vai se consolidar na próxima década como um dos jogadores mais atemporais do seu tempo. Daquela estirpe de gente que não vai depender de resultados, mas que detém um futebol e um estilo invejável, auto-suficiente. Esteja certo que você está vendo a história desenhar-se debaixo de seu nariz.
O gol que Carlos Eduardo, substituto de Robinho no segundo tempo, desperdiçou me pareceu sintomático como característica da equipe. Ele não chutou no gol, dentro da área. Ele bateu delicadamente, sem preciosismo, mas com a
leveza, a elegância (pedindo desculpas para a bola) de um time que aponta para uma direção mais que bem-vinda. Evidente que é improvável para um relés mortal acenar se isso tudo vai levar a algum resultado positivo, ou não. Isso é futebol. O que se faz é uma projeção, uma ponderação acerca do que acontece. Mas não há dúvidas de que fazer as coisas como parecem estar sendo feitas significa, em outras palavras, estar mais longe do erro. O que não representa, no futebol, garantia de se aproximar do acerto.
Mas é magnífico, na minha concepção de futebol, acabar o jogo com um elástico de Ganso, um drible no latifúndio prosado por Armando Nogueira. Uma aula de estilo e bom-gosto.
Reconheço que o texto soe laudatório demais. Mas me sinto a vontade, na condição de quem foi um crítico contumaz do antecessor de Mano Menezes, ainda quando as coisas pareciam sob controle, como de fato estiveram, em algum momento.
Com o perdão da maldade, Dunga só (…) não ganhou o que era mais importante: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. O resto são apenas números históricos e invejáveis, o que dá a medida do quanto somos grandes futebolisticamente, ainda que num período histórico de menor exuberância.
Penso que a grande lição dessa vitória pode ser resumida em uma frase: Se a primeira impressão é a que fica…
David Musso comentou no post Americano com cara de europeu. Assim será o novo circuito da F1 no Texas 1 minuto atrás · Ver