Colunistas • Por Rock Com Vina •
O Rock com Vina fez uma entrevista com a banda Ruído/mm. Curta o som deles, e viaje para onde você quiser ouvindo o som.


1- O Ruído/mm é uma das bandas curitibanas mais conhecidas, sabemos que é difícil uma banda instrumental pós Rock fazer sucesso, o que vocês colocariam como o diferencial para conquistar os fãs a cada dia?
Já que estamos numa conversa, vou me permitir já de cara uma pergunta: quando você usa o termo “conhecido” ou mesmo o termo “sucesso”, eu confesso que me vem uma dúvida em relação ao sentido da tua pergunta. Afinal, é importante ser conhecido? E ser conhecido por quem? Da mesma forma, sucesso – como você mede isto? Popularidade?
Eu acho que isso merece uma reflexão: vivemos um tempo em que o artista tem que ser tão líquido quanto a sociedade, seguindo a lógica do amigo Zygmunt. Os métodos, a técnica de produção musical, a facilidade em se gravar – tudo isto modificou as relações de poder que conduziam o “negócio” artístico e norteavam o “fazer” artístico. Se o artista consegue conviver bem com esta diferença – se ele é livre para se expressar, para produzir-se no sentido do criar e se recriar sem se submeter à pressão da industria cultural e do público – eu entendo isto como um tipo de sucesso que almejamos.
Já o artista popular mas escravo da imagem que criou – este está sempre em conflito entre o que produz e as exigências do negócio. Simplificando, é negócio ou arte? Para o artista de nicho, será justo usar o termo “sucesso” para quantificar/qualificar a música resultante?
Em resumo, para nós o que importa é o “produzir-se” e não o “produzido”. 
2- O que vocês acham da cena musical de Curitiba?
Curitiba tem os ingredientes ideais para a formação de bandas. Por exemplo, um frio que favorece as pessoas ficarem trancadas nas garagens fazendo o rock… Ou o fato de não olharmos para as pessoas – perfeito para uma banda shoegaze. *risos. A cena… Nós somos otimistas – conhecemos uma galera empenhada no rock e interagindo. Essa é a parte boa. Gente talentosa e que busca a interação. Acredito que a cena, na verdade sejam estas teias-conexões-contatos.
Em outros sentidos, não vejo nenhuma cena, nenhum movimento estético organizado – e nem faz falta.
3- Qual foi a experiência de tocar fora do país?
Cara: foi muito parecido com tocar no nordeste; explico essa analogia: nosso som é introspectivo, por vezes melancólico. Quando tocamos no nordeste, percebemos um interesse legal e genuíno das pessoas – o que é louco para nós curitibanos, pois a música em outras partes do Brasil fala muito com o corpo de uma forma extrovertida. Ao tocarmos, nos surpreendemos com o fato de que inverter essa lógica tenha funcionado bem em Maceió e Recife por exemplo – as pessoas aceitaram o desafio e mergulharam na experiência.
Tocar nos EUA, teve esta coisa do inusitado da mesma forma – uma banda brasileira de post-rock – as pessoas que nos ouviram no SXSW decerto tinham um pré-conceito do que seria este post-rock. Para nossa alegria, acredito que eles foram surpreendidos positivamente. Para nós foi uma alegria enorme.
4- Quais são os planos para os futuros trabalhos?
Tiramos umas férias curtas para recuperar o prejuízo que a banda nos traz… Haha. Mas em breve vem o degelo. Aos poucos vamos construindo o próximo disco. Este é o foco.
5- Vocês tem em mente compor para trilha sonora de filmes/longa?
Este é um sonho antigo. A entrada do Felipe na banda trouxe algo que faltava que era a experiência com esta linguagem específica da construção do som. Aos poucos estamos fazendo estas intervenções. As oportunidades tem surgido – falta nos apaixonarmos pelo projeto.
6- Suas influencias envolvem mais o Post Rock, Rock Psicodélico ou variam entre outras vertentes também? Envolvem quais bandas?
Somos em 6 (considerando o nosso Ramiro-espectro). Cada um de nós é um viciado em música, com milhares de referências e tal. O consenso do que fazemos é por vezes muito difícil. Isso se reflete no trabalho, que apesar de tudo, tem funcionado de forma orgânica. Mas rotular é sempre uma forma de limitar – post-rock, psicodélico, space-rock ou spaghetti-western – enfim, é um tipo de categorização meio absurda.
Mas vá lá – que chamem e correlacionem do jeito que quiserem. Até porque as influências, temos de tudo. O Panke por exemplo gosta do Luis Caldas. :o)
7- Vocês acham que a ausência de uma letra marcante afeta o interesse das pessoas ou aqui no Brasil não há esse preconceito com bandas Post Rock?
As palavras estão tendo – de maneira geral – um efeito ruim na música autoral. Além da grande quantidade de bobagens escritas, que não tem absolutamente motivo de existirem, as palavras na música pop, jogam a música para um segundo plano indesejável. Nós estamos interessados no material musical e nas inter-relações que a experiência subjetiva musical provoca nas pessoas. É esse tipo de interesse que buscamos despertar, nessas interações-emaranhamentos com os ouvintes. É como no “Lobo da estepe” do Hesse – aqui, a entrada é só para loucos.
8- O processo de composição é muito mais complexo, quanto tempo em média vocês levaram para compor o ultimo CD, Rasura?
O Rasura demorou cerca de um ano. A demora tem a ver com este processo de degelo. Não tem porque acelerar o processo – nós estamos preocupados com a nossa auto-crítica em primeiro lugar. Quem sabe até fim do ano, sai mais um. Mas vai saber: a ruido funciona em escala geológica. Haha.

 
 


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